Pedro e eu nos conhecemos através de um amigo
Nossos trabalhos eram de temas totalmente diferentes, então, eu nem pude dar muitas dicas. As conversas iniciais eram, realmente, sobre trabalho. Só que, como era de se esperar, um dia o assunto acabou... Foi aí que surgiram assuntos variados: música, televisão, faculdade, jornais, diplomas para jornalistas e... sexo.
Não me lembro bem como começou tudo, mas sei que em pouco tempo, já falávamos sobre surubas, motéis, ménages e tudo mais. Eu me fazia de desentendido e dava linha às suas brincadeiras. Ele tentava, a todo custo, me fazer dizer algo que confirmasse que era gay. Eu brincava dizendo que também era jornalista e entendia as “técnicas” utilizadas para que um entrevistado se entregasse.
Um dia, não sei porque, eu disse que já tinha beijado outros caras e pedi, por favor, que ele não comentasse nada com seu amigo sobre isso. Insistia perguntando se ele não queria que eu fosse seu primeiro beijo. Pra mim era brincadeira. Pra ele também.
Só que um dia a brincadeira ficou séria e ele disse, assim, de repente, que queria me beijar. Eu me assustei e ele disse que eu não poderia pensar muito e que, se ele tivesse tempo para pensar, certamente iria desistir.
Isso me deu uma sensação de poder, mas isso não me subiu à cabeça. Mais que depressa, me coloquei a disposição para que nos encontrássemos.
Um primeiro beijo
Se acontecesse
Se a gente se encontrasse
Como ia ser? Como saber?
Antes de nos conhecer
Quiçá beijar
Pensar em beijo pra confessar
Nem ao menos sei seu nome...
Uma semana depois. Primeiro encontro. Estava tudo combinado. Iríamos para algum lugar distante, onde poderíamos nos beijar. À tarde, recebo uma mensagem dizendo que ele não poderia ir, pois houvera um imprevisto no trabalho. Eu, super compreensivo, disse que “tudo bem”. Imprevistos realmente acontecem.
As conversas pela internet seguiam de forma normal. Ora parecendo brincadeira, ora parecendo coisa séria. Duas semanas após o bolo, marcamos outro encontro. No dia marcado, o menino simplesmente sumiu. Acho que nem uma intimação da justiça o faria aparecer. Liguei, mandei mensagens, e-mails e nada de o sujeito dar sinal de vida. Dessa vez eu perdi a esperança de que acontecesse qualquer coisa. Mesmo assim, imaginei que ele deveria estar confuso com isso tudo e que, se realmente fosse ocorrer alguma coisa entre nós, eu teria que ser paciente.
Alguns dias depois, ele me telefonou, se justificando. Disse que seu computador havia estragado e pediu desculpas. Em determinada hora da conversa, disse que tinha que arrumar um tempo pra sair com “o outro”. Isso! Eu era “o outro”. Ele tinha namorada. Eu? Nem me importei com isso.
Algum tempo depois, ele decide marcar o tal encontro de repente, me pegando de surpresa. Mas, sei lá, aceitei.
... Nem ao menos sei seu nome
Pra confessar, pensar em beijo
Quiçá beijar
Antes de nos conhecer
Como saber? Como ia ser?
Se a gente se encontrasse
Se acontecesse
Um primeiro beijo
Dessa vez ele não furou. Nos encontramos. Conversamos sobre quase tudo, menos sobre nós. Na hora de ir embora, dentro do carro, eu questionei se a gente já iria “Assim? Tão cedo? Sem acontecer nada?”. Ele riu e só pediu para que fôssemos para uma rua mais afastada.
Ele estava tenso. E disse isso. Eu ria, pedia que ficasse calmo, mas não adiantava. Então, resolvi falar sério e disse que não queria forçar nada. Eu sabia como ele deveria estar se sentindo. Eu também passara por isso na primeira vez que beijei um homem.
- “Aí! Nessa sombra tá bom!” – disse ele.
Estacionei. Recostamos os bancos e, em pouco tempo, já estávamos nos beijando. Juro que pensei que na namorada dele e no quanto ela devia ser feliz. Pedro tem um beijo bom. Não sei se pela situação, mas sua boca era voraz ao mesmo tempo em que era doce. Sua respiração ofegava. O coração disparado. Eu me segurando para não rir. Pedia que ele ficasse calmo e que aproveitasse o momento. Ele nem me deixava falar direito e voltava a me beijar.
As mãos começaram a deslizar barriga abaixo. Mãos dadas, beijos, carinhos... tudo que eu não esperava de um “hétero”. De repente...
-“Guarda!” – ele falou assustado.
Eu pensava: “Guarda como? Guardar o quê? Ainda não tiramos nada... está tudo no lugar”. Mas foi o tempo de dizer um “hã?”, abrir os olhos e ver um segurança parado em frente ao carro. De costas para nós, falando pelo rádio comunicador.
- “Fudeu” – disse enquanto arrancava o carro e acenava para o segurança com um sorriso assutado na cara. Um “desculpai” saiu entre os dentes.
Começamos a rir. Pedro agora ele estava ainda mais nervoso. E eu super puto, praguejando contra todos os outros casais que ocupavam todas as outras “sombras” daquela rua. Por que o segurança só foi até o meu carro? Putz... que marcação!
Acabou qualquer clima de continuar alguma coisa. O jeito, então, foi ir embora. No caminho falamos sobre isso, sobre o sentimento de culpa, sobre desabafar e sobre o nosso segredo. Disse a ele que entendia o que ele devia estar sentindo naquela hora, e tentei convencê-lo de que não fizera nada de errado. Mas acredito que, pra ele, era bem difícil pensar assim.
Não se falou em um próximo encontro. Também não espero que haja. Vou deixar rolar sem nenhuma expectativa. Esse papo de ser “o outro” me deixou bem animadinho...
Na porta de casa, ele desceu do carro e eu segui em direção à minha casa. Um sorrisinho feliz no rosto e a primeira imagem que me veio à mente foi a daquele personagem da Escolinha do Professor Raimundo que se dava mal nas aulas quando dizia que grandes figuras históricas eram gays, mas, mesmo assim, sempre terminava feliz, dizendo que “foi mais um que eu levei pra irmandade”.
Não, não... Não! Não mesmo... eu não disse isso!
Até a próxima.