domingo, 16 de agosto de 2009

... Mas aconteceu!

Olá amigo, como vai? Tenho uma história pra contar...
Pedro e eu nos conhecemos através de um amigo em comum. A verdade é que ele estava iniciando seu projeto de conclusão de curso e queria conversar com um jornalista que lhe desse sugestões sobre a bibliografia a consultar. Então, o “amigo em comum” falou sobre mim, e Pedro me adicionou no Orkut e no MSN.

Nossos trabalhos eram de temas totalmente diferentes, então, eu nem pude dar muitas dicas. As conversas iniciais eram, realmente, sobre trabalho. Só que, como era de se esperar, um dia o assunto acabou... Foi aí que surgiram assuntos variados: música, televisão, faculdade, jornais, diplomas para jornalistas e... sexo.

Não me lembro bem como começou tudo, mas sei que em pouco tempo, já falávamos sobre surubas, motéis, ménages e tudo mais. Eu me fazia de desentendido e dava linha às suas brincadeiras. Ele tentava, a todo custo, me fazer dizer algo que confirmasse que era gay. Eu brincava dizendo que também era jornalista e entendia as “técnicas” utilizadas para que um entrevistado se entregasse.

Um dia, não sei porque, eu disse que já tinha beijado outros caras e pedi, por favor, que ele não comentasse nada com seu amigo sobre isso. Insistia perguntando se ele não queria que eu fosse seu primeiro beijo. Pra mim era brincadeira. Pra ele também.

Só que um dia a brincadeira ficou séria e ele disse, assim, de repente, que queria me beijar. Eu me assustei e ele disse que eu não poderia pensar muito e que, se ele tivesse tempo para pensar, certamente iria desistir.

Isso me deu uma sensação de poder, mas isso não me subiu à cabeça. Mais que depressa, me coloquei a disposição para que nos encontrássemos.

Um primeiro beijo
Se acontecesse
Se a gente se encontrasse
Como ia ser? Como saber?
Antes de nos conhecer
Quiçá beijar
Pensar em beijo pra confessar
Nem ao menos sei seu nome...


Uma semana depois. Primeiro encontro. Estava tudo combinado. Iríamos para algum lugar distante, onde poderíamos nos beijar. À tarde, recebo uma mensagem dizendo que ele não poderia ir, pois houvera um imprevisto no trabalho. Eu, super compreensivo, disse que “tudo bem”. Imprevistos realmente acontecem.

As conversas pela internet seguiam de forma normal. Ora parecendo brincadeira, ora parecendo coisa séria. Duas semanas após o bolo, marcamos outro encontro. No dia marcado, o menino simplesmente sumiu. Acho que nem uma intimação da justiça o faria aparecer. Liguei, mandei mensagens, e-mails e nada de o sujeito dar sinal de vida. Dessa vez eu perdi a esperança de que acontecesse qualquer coisa. Mesmo assim, imaginei que ele deveria estar confuso com isso tudo e que, se realmente fosse ocorrer alguma coisa entre nós, eu teria que ser paciente.

Alguns dias depois, ele me telefonou, se justificando. Disse que seu computador havia estragado e pediu desculpas. Em determinada hora da conversa, disse que tinha que arrumar um tempo pra sair com “o outro”. Isso! Eu era “o outro”. Ele tinha namorada. Eu? Nem me importei com isso.

Algum tempo depois, ele decide marcar o tal encontro de repente, me pegando de surpresa. Mas, sei lá, aceitei.

... Nem ao menos sei seu nome
Pra confessar, pensar em beijo
Quiçá beijar
Antes de nos conhecer
Como saber? Como ia ser?
Se a gente se encontrasse
Se acontecesse
Um primeiro beijo


Dessa vez ele não furou. Nos encontramos. Conversamos sobre quase tudo, menos sobre nós. Na hora de ir embora, dentro do carro, eu questionei se a gente já iria “Assim? Tão cedo? Sem acontecer nada?”. Ele riu e só pediu para que fôssemos para uma rua mais afastada.

Ele estava tenso. E disse isso. Eu ria, pedia que ficasse calmo, mas não adiantava. Então, resolvi falar sério e disse que não queria forçar nada. Eu sabia como ele deveria estar se sentindo. Eu também passara por isso na primeira vez que beijei um homem.

- “Aí! Nessa sombra tá bom!” – disse ele.

Estacionei. Recostamos os bancos e, em pouco tempo, já estávamos nos beijando. Juro que pensei que na namorada dele e no quanto ela devia ser feliz. Pedro tem um beijo bom. Não sei se pela situação, mas sua boca era voraz ao mesmo tempo em que era doce. Sua respiração ofegava. O coração disparado. Eu me segurando para não rir. Pedia que ele ficasse calmo e que aproveitasse o momento. Ele nem me deixava falar direito e voltava a me beijar.

As mãos começaram a deslizar barriga abaixo. Mãos dadas, beijos, carinhos... tudo que eu não esperava de um “hétero”. De repente...

-“Guarda!” – ele falou assustado.

Eu pensava: “Guarda como? Guardar o quê? Ainda não tiramos nada... está tudo no lugar”. Mas foi o tempo de dizer um “hã?”, abrir os olhos e ver um segurança parado em frente ao carro. De costas para nós, falando pelo rádio comunicador.

- “Fudeu” – disse enquanto arrancava o carro e acenava para o segurança com um sorriso assutado na cara. Um “desculpai” saiu entre os dentes.

Começamos a rir. Pedro agora ele estava ainda mais nervoso. E eu super puto, praguejando contra todos os outros casais que ocupavam todas as outras “sombras” daquela rua. Por que o segurança só foi até o meu carro? Putz... que marcação!

Acabou qualquer clima de continuar alguma coisa. O jeito, então, foi ir embora. No caminho falamos sobre isso, sobre o sentimento de culpa, sobre desabafar e sobre o nosso segredo. Disse a ele que entendia o que ele devia estar sentindo naquela hora, e tentei convencê-lo de que não fizera nada de errado. Mas acredito que, pra ele, era bem difícil pensar assim.

Não se falou em um próximo encontro. Também não espero que haja. Vou deixar rolar sem nenhuma expectativa. Esse papo de ser “o outro” me deixou bem animadinho...

Na porta de casa, ele desceu do carro e eu segui em direção à minha casa. Um sorrisinho feliz no rosto e a primeira imagem que me veio à mente foi a daquele personagem da Escolinha do Professor Raimundo que se dava mal nas aulas quando dizia que grandes figuras históricas eram gays, mas, mesmo assim, sempre terminava feliz, dizendo que “foi mais um que eu levei pra irmandade”.

Não, não... Não! Não mesmo... eu não disse isso!

Até a próxima.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A alegria do pecado...

Oi amigo... Hoje resolvi deixar um pouco de lado os pequenos detalhes de minha vidinha mais ou menos, pra contar um caso à parte – que também não é lá grandes coisas! Tem conselhos que ficam pra sempre, não é mesmo? Olha só:

- "Mauro, permita-se sentir culpa! Cometa erros! Peque! Faça coisas que lhe deixarão com uma terrível sensação de culpa. Sentir culpa é uma coisa única. E ótima!"

Apesar do nome trocado, quem recebeu esse conselho fui eu. De uma mulher que nunca tinha me visto antes.

Peixes são iguais a pássaros
Só que cantam sem ruído
Som que não vai ser ouvido (...)


- "Me identifiquei com você, Mauro. Nós precisamos cometer pecados juntos..."

Não sei por que, mas também me identifiquei com ela logo na primeira vez que a vi. Agora estávamos ali: ela, eu e mais três amigas, sentada na mesa de um bar, tomando cerveja e dividindo um espetinho de mussarela.



(...) Voam, águias, pelas águas
Nadadeiras como asas
Que deslizam entre nuvens (...)



Me senti muito a vontade com ela. Parecia que já nos conhecíamos há muito tempo. Na verdade, temos uma amiga em comum. E só. Ela não mora em Belo Horizonte, mas nossa amiga havia me prometido que, assim que ela estivesse por aqui, iríamos nos conhecer. Depois de algumas correções – em vão – passei a ser "Mauro" aquela noite.



O nome pouco importava. Eu estava tão atento, e tão maravilhado com o que ela me dizia, que nem me lembrava que meu nome não era Mauro. Tudo o que ela disse, me serviu muito. Me fez bem, muito bem, ouvir alguém que nunca me havia me visto antes dizer que acredita que eu posso me tornar uma pessoa ainda melhor do que eu sou.



(...) Peixes, pássaros, pessoas
Nos aquários, nas gaiolas,
Pelas salas e sacadas
Afogados no destino
De morrer como decoração das casas (...)


Ela, em momento algum, me incentivou a fazer nada de errado. Ela não quis que eu matasse alguém, roubasse, ou usasse o 'santo nome de Deus em vão'. Ela me incentivou apenas a fazer. Simplesmente fazer. Ela me mostrou que sentir culpa por uma coisa que você fez é muito melhor do que sentir culpa de nem ao menos ter tentado.



Ela é gay. Certamente sabe que eu também sou, mas, em momento algum, falou nada sobre isso. Não fez nenhuma referência à sexualidade de nenhum de nós. Até mesmo porque, pelo que conheci, percebi que é uma pessoa muito íntegra e, certamente, não iria me expor na frente das outras pessoas.



(...) Nós vivemos como peixes
Com a voz que nós calamos
Com essa paz que não achamos (...)


A proposta era que começássemos a pecar ainda naquela noite...
Mas, apesar disso, ela já estava um pouco bêbada. E eu não ficava muito atrás.

Me despedi dela com um abraço apertado e um singelo, mas sincero, "muito obrigado".
- "Mauro, te espero em São Paulo! Vamos pecar juntos lá..."


Disse, antes de completar, de mãos dadas comigo, dizendo que me receberia em São Paulo cantarolando que “é hoje o dia da alegria e a tristeza não pode pensar em chegar”.



Terminei a noite sem nenhum pecado. Acho que até hoje não cometi nenhum pecado também... Mas tô animado a ir pra São Paulo. Quem sabe até mostrar a ela essa carta para que, de alguma forma, ela saiba que seu conselho foi importante pra mim.



(...) Nós morremos como peixes
Com o amor que não vivemos
Satisfeitos?
Mais ou menos (...)

Me lembrei das vezes que senti culpa...

De quando beijei um cara pela primeira vez e pensei em minha mãe o tempo inteiro...


De quando conheci um cara numa boate e amanheci o dia na casa dele...


De quando transei com o Rafa na primeira vez que saímos...


Confesso que, a princípio, a culpa não fez bem. Me senti mal, me senti sujo... Mas, analisando, a longo prazo, vi que não fiz nada de errado e que esses "pecados" só serviram pra eu aprender alguma coisa.




(...)Todas as iscas que mordemos
Os anzóis atravessados
Nossos gritos abafados.
Peixes, pássaros, pessoas...



Ela disse que sou muito casto. Muito preso à família e aos que os outros podem pensar a meu respeito. E, com isso tudo, acabo por não viver a minha vida de uma maneira que eu possa aproveitá-la mais, de forma consciente. Faz muito sentido. Muito mesmo!!

Será que pecar é bom ou ruim??
Sei não...mas vou experimentar!



Grande abraço e alguns "pecados".

Até a próxima.