quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O que eu não sou

Oi amigo, tudo bem? Relutei um pouco antes de te escrever essa carta por achar que, talvez, pudesse não ser bem compreendido por você. Vou contar um caso que aconteceu comigo há um tempo atrás.

No meu último emprego, trabalhei ao lado de rapaz que era gay. Assumido. Durante todo o tempo que trabalhamos juntos, nós tivemos uma relação bem legal, de onde resultou certa amizade.

Júlio é daqueles que sempre tem uma história pra contar. Eu, sempre ouvindo e achando graça. Às vezes ele terminava de contar e dizia alguma coisa do gênero “ele não é lindo?” ou “homem é bom demais, não é?”. Eu, sem graça pela presença de um outro colega na sala, apenas ria e desconversava.

Eu nunca disse que era gay, e ele nunca me perguntou. Dizia apenas que “se você fosse dos nossos, iria fazer sucesso”. Eu, de novo, apenas ria e duvidava. “Será?”.

Na festa de final de ano da empresa, com um pouco de cerveja na cabeça, disse a uma outra colega – e amiga desse rapaz há muito tempo – que já tinha me relacionado com outros homens. Ela também confessou que já tinha ‘experimentado’ outra menina, mas que não havia gostado.

Na hora de ir embora, ao me despedir de Júlio, ele fez algum comentário – que não me lembro muito bem qual foi – e logo se corrigiu:

- “Desculpa, eu esqueci que você é homem...”

Eu ri, dizendo que nem era tãããão homem assim. Ele, aproveitando, disse em tom mais alto que sempre soube que eu era mulher.

- “Não, velho! Sou homem, porra!” – eu disse, meio bravo.

Não sei se já disse isso em outra carta, mas acontece que, depois que eu contei pra minha irmã sobre eu ser gay, ando com uma vontade fudida de sair contando pra todo mundo. Mas eu paro, penso e não encontro uma razão pra isso.

E é isso que, parece, Júlio não percebeu. Em outras conversas – já fora do trabalho – falei sobre meus lances e até paquerei um cara perto dele. É fato que sou gay! E não me importo que todos saibam...

Eu ter dito que “não me importo que todos saibam” despertou nele um papo de que eu tenho que me assumir e tal, e que “juntos, nós temos mais força”.

Oi? Juntos? Quem? Eu e a comunidade gay? Já imagino uma turma enorme de gays na minha porta, fazendo campanha para que meu pai me aceite! Não rola! Não dá.

Tentei convencê-lo de que, pra mim, isso é bem claro. Eu sou gay! Mas precisa sair espalhando??

“Oi, muito prazer. Eu sou o Théo. Tenho 24 anos. Gosto de doce de leite. Minha cor favorita é verde e sou gay.”

Isso acrescenta o que na minha vida? Só mais um rótulo (eu acho) e é nessa parte que acho que posso ser mal compreendido. Veja bem, amigo. Vamos com calma...

Eu sei que, uma hora, meus pais vão ter que saber sobre isso. Óbvio. Mas precisa mesmo que meus avós, que já passam dos 80 anos, saibam com quem eu durmo? Precisa daquela prima distante, lá do interior, saber que “o filho da fulana é gay”? Não! E até que me convençam do contrário, vou continuar pensando assim. Apenas as pessoas que realmente precisam saber sobre isso, saberão – no que depender de mim.

Vou sozinho, ou com alguns, poucos e bons, amigos enfrentando as situações que, com certeza, aparecerão e que, com certeza, não serão fáceis.

Pode ser medo, ou até mesmo um preconceito? Pode, é claro. Então estou aqui, me assumindo um medroso ou preconceituoso.

Consegui me fazer ser entendido? Desculpa se não... Me escreva de volta dizendo o que você achou e, quem sabe, isso não renda assunto pra uma outra carta, não é?

No mais, silêncio! Não conte a ninguém! (brincadeira!!!)

Grande abraço.

Até!