sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sobre pessoas - parte II

Querido Jonathan,

Eu gostei muitíssimo de você. Eu costumava me sentir atraído por caras que mentiriam pra mim e que pensavam só em si mesmos. E você foi bastante autodestrutivo para o meu gosto naquela época. Eu costumava dizer que 'quanto mais trágico melhor', mas a verdade é que, sempre que eu me lembro do começo dos anos 90, seu rosto vem à tona com uma força, como se tivesse sido ontem.

Mon Gar. Era assim que ele me chamava. Meu garoto. Ele era sete anos mais velho que eu e, de alguma forma, cuidava de mim como se fosse realmente o seu garoto.

A gente se conheceu pelo Orkut. Eu criei um perfil falso e comecei participar de comunidades. Procurando, sem muitas esperanças, encontrar alguém interessante.

Certa vez me deparei com tópico em discussão: “Será que ainda hoje, existem caras sérios?”. Eu, com meu recém criado perfil, respondi apenas dizendo: “existem! Olha eu aqui”.

No outro dia, ao acessar minha conta, havia um recado dizendo que queria mesmo saber se eu era um rapaz sério. E um endereço de email. Eu o adicionei e logo começamos a conversar.

Conversas banais. Nada de muito importante e nem de muito secreto a respeito de nenhum dos dois. Só que as conversas foram rendendo e, em pouco tempo, já nos falávamos todos os dias. Passavam-se os dias e fomos sabendo mais um pouco sobre nossas vidas.

Eu, um estudante de 22 anos. Começando a faculdade. Desempregado. Morando com os pais e sem nunca ter namorado. Ele, um médico, 29 anos. Com um longo relacionamento no currículo. Nasceu no Paraná, mas morava em São Paulo. Fez medicina em Quebec, tinha parentes em Moscou, visitara Paris algumas vezes, fluente em cinco idiomas. E lindo. Era demais pra mim. Não me achava merecedor de tudo aquilo, mas, ele conseguiu me convencer do contrário, dizendo sempre que havia se “cansado de pessoas superficiais que só se importavam com minha beleza, meu dinheiro e meu cargo”. Ok. Eu não me importava mesmo com isso.

E isso foi o bastante para que logo surgisse um papo sobre namoro. Um pedido (da parte dele), e um “sim” (de minha parte). Depois disso, foram nove meses de “namoro” virtual.

Sempre falávamos em nos encontrar. Ele viria pra cá. Segundo ele, havia um amigo em Belo Horizonte que, por coincidência, morava perto de mim. Ainda assim, nunca conseguimos nos ver. A data da viagem vinha se aproximando e ocorria alguma coisa. A gente brigava, o pai – que ainda morava no Paraná – adoecia, ou um outro médico o pedia para cobrir seu plantão.

Nos falamos por telefone uma vez. Uma vez.

Eu cheguei a sair e não ficar com ninguém. Cheguei a dispensar um rapaz que se mostrou interessado em mim, pensando no meu namorado que, um dia, chegaria. Eu era fiel! Fui um ótimo namorado. Dava até satisfações sobre o meu dia. Mas nunca dei muita informação. Até mesmo o número do meu telefone ele descobriu. Não sei como. Era um cara inteligente ou, no mínimo, um cara com bons contatos.

E eu não queria acreditar que tudo aquilo fosse mentira...

Segurei a barra por muito tempo e estava mesmo apaixonado. Mas chegou uma hora que eu dei um ultimato e, acho, aí estava o meu erro.

No Orkut, criei um lado “B”. Um fake que acabou se tornando maior do que eu esperava. Uma comunidade de “fãs” do meu namorado começou a me incomodar. Tinha a sensação de que todos os membros da comunidade eram namorados dele também... Ele dizia que não poderia “assumir” nada comigo porque as pessoas que participavam dessa (maldita) comunidade só por causa dele, deixariam de participar, caso ele fosse comprometido. A tal comunidade se tornou uma obsessão. Não dá pra entender, dá? Não conseguia ver que importância essas pessoas tinham na vida dele, mais do que seu namorado de nove meses – no caso, eu.

Por fim, desisti. Joguei a toalha. Falei tudo o que quis e também ouvi coisas que não gostei. Ele disse que eu era imaturo e que, com minha atitude “virtual”, demonstrei ser um cara que não serviria mesmo para estar ao seu lado pela vida toda. Oi?

Um tempo depois da briga, o clima do Natal me comoveu e eu enviei-lhe um email querendo notícias. Apenas desejando um feliz Natal. Nem esperava resposta. Mas ele respondeu. E com a resposta, a certeza de que ele ainda estava bem vivo pra mim. Conversamos mais algumas vezes, com ele dizendo que estava sozinho, que sentira minha falta, que ainda podíamos reverter a situação... Disse até que esteve em Belo Horizonte na época em que estávamos brigados e que não me procurou por achar que eu não quisesse vê-lo.

Não sei há quanto tempo isso tudo aconteceu. Não me lembro da última vez que nos falamos. Calculo que já tenha uns dois anos, mas eu sou péssimo com datas. Não sei por onde ele anda. O perfil no Orkut foi abandonado, ele não responde mais emails e, ao que parece, nem mesmo os “outros namorados” tem notícias dele.

A última notícia que tive foi a de que seu pai havia falecido. Ele estava arrasado. Quando ele me contou que estava chorando, eu, do lado de cá, me derramei em lágrimas. Ele me apoiava. Eu o apoiava também. Éramos cúmplices em algumas coisas... Éramos parceiros.

Não me pergunte por que eu acreditei nisso! Eu não preciso que mais ninguém me lembre do idiota que eu fui por esse tempo todo. Isso me dói. Saber que eu posso ter sido enganado esse tempo todo (e, tudo indica que fui!) é incômodo. Não saber onde procurar também dói. Saber que ele pode nunca mais voltar... Isso dói mais ainda.

Acho que ainda sou idiota por acreditar nas pessoas, mesmo sem conhecê-las. Minha carência e meu exagerado lado romântico me deixam muito vulnerável.

A verdade é que, sempre que eu me lembro daquela época, seu rosto vem à tona com uma força, como se tivesse sido ontem. Mas digo, sem sombra de dúvidas, que aqueles foram os melhores nove meses da minha vida. Os meses em que eu me senti realmente amado, mesmo que fosse por alguém que não existe. O mais próximo de amor que eu, até hoje, recebi. Pra mim ele existe. Ainda existe. Não sei onde ele anda, não sei quem ele é, mas ele vai estar em mim pra sempre... por mais estúpido que isso seja. E eu sei que é.

Abraço.

Até a parte três.

17 comentários:

Caco disse...

Eu admiro sua sinceridade.

Sempre vai existir os caras safados que metem.

Sempre vai existir os que acreditam.

"Digam o que disserem, o mal do século é a solidão. Cada um de nós imerso em sua própria arrogância, esperando mais um pouco de atenção."

Renato Russo

É tudo que as pessoas querem: carinho, atenção. E quando não têm, inventam.

Caco disse...

*Que mentem!!!

Marcelo R. Rezende disse...

Eu chamo isso de vontade de amar e disponibilidade para isso. Tem muita gente que diz querer se envolver, mas é por puro mecanismo social. Não te acho idiota, te acho corajoso.

Até a próxima parte.

Arsênico disse...

Querido... quem nunca passou por isso que atire o primeiro mouse! Não é?

Tive uma experiência parecida... também começou pela internet... o conheci pessoalmente... e durou 22 dias... e foram talvez o únicos 22 dias mais felizes da minha vida apesar de tudo que ele me fez sofrer!

Rendeu uns 4 post's no meu blog entitulados de 22 Dias!

Se bater a curiosidade... dê uma lida!

Enfim... isso chama-se carência de pessoas extremamente românticas que se entregam facilmente!

Don't worry honey! Somos dois!

***

umBeijo!


;D

FOXX disse...

pra mim ele não existe.
defintivamente deve ser um cara que inventou um personagem e não consegue viver mais sem ele...

Antonio de Castro disse...

o meu jonathan era rudolf.

e quem nunca uma história dessa?

Cleyton Cabral disse...

Oi Theo, obrigado pela visita. Voltarei aqui para ler você. abs

Paulo Braccini disse...

ah! já vivi isto duas vezes na vida e olha q nem existia esta história de net ... foi através de um chat telefônico, na época conhecido como 145 ...

aff ...

não gosto nem de lembrar ...

bjux

;-)

Renato Orlandi disse...

Eu não acredito MAIS que seja "culpa" de excesso de carência, acho que é excesso de acreditar no outro, de estar aberto, para uma relação, ficamos também para toda essa sorte de gente...... Gostei mto do texto e sua história foi muto intensa com ele, comemore isso.... quero ver qdo esse séria chegar nos dias de hj! ^^ bjao!

Atreyu disse...

Esse tipo de amor nunca termina bem! Mas depois as coisas mudam e você acha uma pessoa massa

Kivia Nascentes disse...

Não acho que é totalmente idiota por confiar nas pessoas, eu detesto as vezes confiar e muitas vezes erro feio em confiar, mas ainda assim, tem algo lá no fundo que sempre me diz a me dar uma chance, a acreditar, porque uma hora acaba acertando.

Coragem a sua, de abrir-se assim, expor, e acho que é um bom começo para enfim se ver livre.

beijos.

S.A.M disse...

Já pessei por isso, no meu caso, com o tempo, vi que esse tipo de relacionamento é muito dificil - muito mesmo - e como eu não consigo dar crédito a situações de pequenas probabilidades, não me envolvo, pois penso que estou perdendo meu tempo.

Te admiro, por revelar algo tão sincero e particular.

Boa sorte
Abração!

Luan disse...

putz.

mto bom!

nao acho que o problema do mundo seja a solidão, como ja foi dito aqui.

acho de verdade que é a solução.

e aqui, se isso tudo é unsent, vc devia considerar pelo menos dizer um pouco sobre essas pessoas para as pessoas. =)

bração!

Leonardo Filizolla disse...

Muito bom o texto.
Adoro o blog.

Anônimo disse...

Você já parou para pensar que ele era falso?
Que não existia?
Existem histórias bizarras...
Uma mulher que passava por homens na internet...
Com um perfil assim, ele primeiro não teria um namorado virtual, e caso tivesse, teria feito o possível para te conhecer...
Bizarro, hein.

Anônimo disse...

Precisamos conversar.

Anônimo disse...

"Então nao o ama mais? - Amo. Só guardei isso num cofre. E tranquei. E esqueci a senha. Não porque quis. Foi preciso"