sábado, 15 de janeiro de 2011

Sobre pessoas - Final

Querido Lou,

Nós aprendemos tanto...

Eu sei que não seremos capazes de nos falar por um tempo. Eu entendo isso, e espero que você também. A distância foi a coisa mais difícil, mas nós aproveitamos muito bem o quanto poderíamos ter aproveitado, já que os dois estavam em um momento bastante tumultuado em nossas vidas. Eu sempre vou gostar quando você estiver por perto, e sempre vou querer saber sobre você, sobre sua carreira e sobre o que tem feito...

Acho que, naquela época, eu devia ter uns 19 anos. Não tinha amigos e, portanto nunca saía de casa. Perdia, assim, qualquer oportunidade de conhecer uma pessoa. O jeito era tentar encontrar alguém pelos chats da vida. O Thiago foi mais um que conheci pela internet, mas não me lembro bem como...

Em uma das primeiras conversas, Thiago demonstrou uma preocupação em mantermos certa “privacidade”. Ele quis saber se minha família sabia sobre mim, se eu freqüentava “o meio”, se eu era “assumido” e tudo mais.

Não. Naquela época, como já disse antes, eu ainda não conhecia nenhum “meio” e morria de medo de que alguém descobrisse que gostava de meninos.

Conversamos por certo tempo e logo estávamos falando sobre nossa busca por namorados. Sobre as decepções com as pessoas que conhecíamos pela internet e logo surgiu a idéia de nos encontrarmos.

Não quis fazer pressão e, após muitos encontros marcados – e demarcados – chegou o dia em que nos encontraríamos.

Pouco antes do horário combinado, recebi uma mensagem dele no celular, dizendo que não poderia me ver naquele dia. Se me lembro bem, era aniversário de uma prima, ou coisa assim. Fiquei muito decepcionado, mas banquei o conformado e respondi a mensagem dizendo que eu entendia e que não haveria problemas. E que marcaríamos outro dia, para outro encontro.

Eu queria conhecer o Thiago. Muito. Mas não estava apaixonado por ele. Não ainda.

Pouco depois, recebi outra mensagem, dizendo que iria me encontrar. Não entendi nada, mas fiquei feliz. Finalmente, a gente iria se ver. Sair do virtual...

Escolhemos uma praça na região central de Belo Horizonte. Romântico, não? E nosso encontro foi assim: rodeados por árvores, crianças com seus pais, cachorros passeando com seus donos, casais velhinhos sentados comendo pipoca, enquanto casais mais jovens se pegavam em algum cantinho mais escuro... E nenhum indício de que Thiago e eu renderíamos alguma coisa.

O Thiago era muito bonitinho... Pouco mais velho que eu. Acho que deveria ter uns 22 ou 23 anos. Baixinho, moreno, um rosto bonito e uma boca, digamos, bastante “simpática”. Trabalhava como cobrador e disse que queria tentar vestibular, mas que tinha medo de não conseguir conciliar estudos e trabalho.

Eu me esforçava pra não demonstrar todo o meu interesse e, quando vi que não iria sair dos papos de amigos, me esforcei pra não deixar a minha frustração, decepção, ou sei lá o quê, ficasse estampada em meu rosto.

Acontece que, aos 19 anos, minha auto estima estava em sua fase boa. Em expansão... E o não interesse do Thiago por mim era um bom golpe em minha (tão rara) crise de autoconfiança.

Na hora de despedir ele me disse que depois conversaríamos sobre “nós”. Que havia gostado de me conhecer pessoalmente, que eu era uma pessoa legal e tudo mais que – posteriormente – eu entenderia que significa um “não rola, cara”.

No caminho até minha casa, me senti um lixo (a primeira vez, até então) e, se me lembro bem, cheguei até a derramar algumas lágrimas.

No dia seguinte, aproveitei a oportunidade para colocar, no MSN, um recado. “Eu sei que eu não sou quem você sempre sonhou”, como cantava Marcelo Camelo na clássica Anna Julia.

E ele recebeu o recado. Logo rolou um papo:

“ – Então, essa frase é pra mim?” – ele perguntou.

Com minha afirmativa, ele foi direto ao ponto. Falou que não era questão de eu ser ou não o que ele sempre sonhou. Disse que estava confuso. Havia um colega de trabalho que vinha demonstrando algum tipo de interesse por ele. Thiago me contou que teve medo de corresponder às investidas do colega e, quando decidiu tentar alguma coisa, o rapaz o disse que ele havia confundido as coisas e que a relação dos dois não passaria de amizade.

Me disse que chegou a pensar em se demitir, tamanha vergonha pelo que aconteceu. Disse que ainda tinha grande interesse pelo colega e que nós dois não daríamos certo. Que não queria me decepcionar, que me queria como amigo e tudo mais que – hoje eu sei – significam um “não rola, cara”.

Mantivemos contato por uns tempos. Falamos sobre a vida, os estudos, os namorados (no meu caso, “a falta de”), família...

Eu me lembro que eu o avisava sobre inscrições para vestibulares, e o incentivava a estudar. Agindo como amigos fariam...

Até que um dia ele reagiu de forma estranha comigo no MSN. Depois de algum tempo sem nenhuma conversa virtual, eu o vi online e decidi puxar assunto.

“ – E aí, Thiago, tá sumido...”

“ – Não é o Thiago. É a irmã dele. Estou usando o computador e o MSN conectou sozinho...”

“ – Certo. Diz a ele então, que mandei um abraço”

Assim foi nossa última conversa. Se era ou não “a irmã dele” eu não sei. Se ele recebeu, ou não, o abraço que o mandei, também não sei. Não sei se ele resolveu a situação com o colega de trabalho, nem se ele se decidiu sobre a faculdade.

Sei que, por algum tempo, eu olhava alguns ônibus na esperança de vê-lo. Sei também que, infelizmente, não era mesmo o que ele sempre sonhou. Ou, talvez, apenas não fosse o momento certo. Não gostei de como a amizade terminou. Gostaria de ter podido dizer a ele que “eu sempre vou gostar quando você estiver por perto, e sempre vou querer saber sobre você, sobre sua carreira e sobre o que tem feito...”.

Fim.

10 comentários:

Caco disse...

A gente se preocupa demais com as pessoas. A gente espera demais das pessoas. A gente esquece do nosso verdadeiro valor, e dá valor demais a quem não tá nem aí pra gente. E, sinceramente, ainda que a gente se foda um milhão de vezes por causa disso, não vamos aprender, se é que se deve mesmo aprender ser quem a gente não é.

FOXX disse...

é
mas o fato de alguém não gostar de vc não te torna alguém ruim, não é?

Rodrigo disse...

Que bonito!


boa semana

dand disse...

Querido Theo, rsrs'

achei lindo e triste ao mesmo tempo..Não gosto de "fins".Isso mexe comigo. E a forma como escreve mexe ainda mais, nem sei como explicar direito, enfim.

Parabéns pelo novo designer do blog, elegante como a forma que escreve seus textos.

Um grande abraço.

Dand.

Ricardo A.M. disse...

Fins sempre são problemáticos e tristes, cara - já passei por alguns assim. E outros piores ainda, como a minha mais recente experiência.

Definitivamente, eu acredito que jamais vou entender a cabeça de algumas pessoas.

Rajeik disse...

Expectativas, interesses e blablabla, é tão ruim quando vc quer e outros possivelmente nao querem, dependencia chata.
Certo, talvez poderiam ter virado amigos e talz, você fez sua parte, de algum modo esse cara fez alguma diferença pra vc, se nao, nem estaria aqui nesse post.
Talvz tbm poderia ter confusao na cabeça dele, sei lá, cês tavam começando.
Ai, acho que to falando merda demais. minha cabeça doi.

E a cincologia terminou. triste. =/

Paulo Braccini disse...

estas coisas acontecem e muito ... não se explicam ... só acontecem ... mas concordo ... o sentimento q fica de situações assim são péssimos ...

bjux

;-)

Nícholas Vasconcelos disse...

Acho curioso que quando levamos o "não rola, cara" parece que o mundo vai acabar. Depois se aprende a tambem dizer que não rola.
A gente vai amadurecendo e nem se dá conta.

Geraldo Brito (Dado) disse...

Saudações e parabéns pelo blog!

Seriam disse...

Infelizmente temos o "dom" (se pode ser chamado de dom) de gostar das pessoas erradas. Mas é assim mesmo, a vida não pára, não tem como dar "pause" então vamos vivendo assim, um dia se ganha, um dia se perde, no outro gritamos e depois gritam conosco...
o segredo é seguir, parar jamais, ter um alvo e sempre ultrapassá-lo.